Comunicado da APT - Associação dos Agricultores e Pastores do Norte



O que verdadeiramente a agricultura e o mundo rural precisam é substituir aqueles que mandam mas não sabem, por aqueles que não mandam, mas sabem

Vem isto a propósito do murmúrio que está a varrer o País com esta incrédula e irresponsável afirmação da necessidade de diminuir e/ ou acabar com o consumo de carne de ruminantes em Portugal, com o objectivo supremo de atingir a “neutralidade carbónica” da nossa economia. 

A Associação dos Agricultores e Pastores do Norte – APT, questiona tais afirmações: será desconhecimento, populismo, demagogia, desplante ou duplicidade? Talvez um pouco disso tudo! 

É sabido que Trás-os-Montes e Alto Douro possui uma enorme diversidade edafo-climática, detém vários solares de raças autóctones de grandes e pequenos ruminantes em regime extensivo, bem adaptados à conservação do ambiente e da paisagem, que fazem parte da identidade das suas gentes e do seu património sociocultural. Exibe um património genético inigualável, cuja herança se perde nas profundezas da sua ancestralidade. Os seus modelos de produção para além de serem biodiversos são ricos na fixação de carbono e produzem alimentos de intrínseca qualidade. Pena é que as “ditas leis do mercado” não lhes atribuam o seu verdadeiro valor. Esta região, tem sido ainda, galardoada com altas distinções por parte da UNESCO e FAO, pelo seu património ambiental, uso e ocupação de solos, modelos de produção, clima e orografia. Sendo a mais recente atribuída pela FAO, como património agrícola mundial à região do Barroso. Sabemos ainda, que a produção nacional de ruminantes de grande e pequeno porte é fortemente deficitária, com consequências dramáticas para a balança de pagamentos. 

Ao invés da redução e/ou eliminação do consumo de carne (como sugerem inusitadamente o Ministro do ambiente ou o Reitor da Universidade de Coimbra), o gesto necessário e patriótico a tomar para a região e o País é o substancial aumento da produção pecuária e seus derivados, em particular, o aumento do efectivo das raças autóctones e não a sua eliminação! 

Perante a actual situação, entende a Direcção da APT chamar a atenção do Governo e restantes Entidades Oficiais que a solução capaz de responder às profundas assimetrias regionais, aos problemas demográficos existentes, à fixação de pessoas no interior do País passa pelo aumento da produção de ruminantes e pelo incremento e apoio aos diversos sistemas agro-florestais existentes e não à sua diminuição ou proibição. A APT entende que os problemas irão persistir ou agravar-se enquanto se mantiverem os modelos de produção intensivos e super-intensivos, as actuais Políticas Agrícolas Comuns (PAC’s), as políticas “ditas” de livre comércio, e as leis da Organização Mundial do Comércio (O.M.C.) do agro-negócio. 

São de conhecimento geral as inúmeras posições e manifestações que a CNA e suas Associadas desenvolveram ao longo dos 40 anos da sua existência, protestando e reclamando outras políticas em defesa do sector agro-florestal, que se tivessem sido acolhidas teriam sido um forte contributo ao combate das causas que estão na origem das alterações climáticas. 

Em síntese: o que a região e o País precisam, com vista a diminuir tais alterações, passa por dar prioridade e preferência aos modelos da agricultura familiar, às produções autóctones em regime extensivo, à criação de mercados locais, aproximando produtores e consumidores, prioridade à floresta multifuncional, respeito dos recursos naturais como sementes, solos, água, e dos seus ecossistemas. O País precisa de produzir, valorizar, e preservar os sistemas da agricultura familiar capaz de dar coesão e sustentabilidade ao mundo rural e às suas gentes. Tal como a CNA tem defendido, o mundo global capaz de responder aos desafios que as alterações climatéricas nos colocam, não pode ser a lavandaria onde o sistema dominante lava cara e mãos com os gases de efeito de estufa que produz e emite para atmosfera e agora aparecer como emergente “salvador” do planeta. É caso para dizer: Fazem o mal e a caramunha! 


A Direcção da APT 

Vila Real, 4 de Outubro de 2019


30-10-2019
 

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